Ortho Evra

Imagens de crianças e adolescentes morrendo costumam provocar intensa comoção. Em situação de guerra são as vítimas mais sacrificadas. No Iraque, na Albânia, em Angola ou em qualquer outra parte do mundo, crianças são brutalizadas pelos grandes interesses capitais que envolvem seus territórios. Quem não se lembra dos pequenos guerrilheiros de Serra Leoa? Dos garotos talibãs? Ou ainda, das crianças mutiladas de Moçambique? O estado de guerra desarticula as populações e esse processo de desumanização atinge em primeiro lugar crianças e adolescentes.

No Brasil, o estado de “guerra civil” é velado, mas as vítimas existem e são, preferencialmente, jovens e adolescentes que não ultrapassam a barreira dos 17 anos. Suas mortes são violentas, causadas pelo narcotráfico, pelo aviltamento das suas condições de vida (que partem desde a desestruturação da família até a miserabilidade) e pelo preconceito social. Recordações recentes devem ser consideradas: a chacina da Candelária, os frequentes casos de prostituição e de trabalho infantil e os soldados do tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro.  Na “guerra brasileira” somente um dos lados morre: o mais pobre. A violência contra jovens e crianças não é um realidade somente das grandes metrópoles, mas também, das áreas rurais do país. Essa dura realidade está camuflada pelo culto da “democracia racial” e pela ideia de que todos têm condições sociais iguais.

Crianças pedintes nos sinais, catadoras de lixo, que se prostituem ou ainda que fumam pedras de crack no centro das cidades são invisíveis para uma parcela importante da sociedade brasileira. Os pequenos deliquentes somente voltam a visibilidade quando cometem atos de infração, tais como, furtos ou assassinatos. Quando devolvem com violência o que recebem no dia-a-dia. O círculo da violência tem pontos de rupturas? Aparentemente, com os modelos aplicados até o momento, não. É possível uma conscientização?Como despertar a sociedade para os problemas que colocam adolescentes e crianças brasileiros em situação de risco? É possível identificar e discutir os fatores que contribuem para essa triste realidade? As manifestações artísticas que contêm linguagens metafóricas podem abrir novos flancos para essa discussão? Em especial, as produções cinematográficas brasileiras trazem essa discussão para o cenário social? Em caso positivo, quais são elas e que perspectivas apresentam para o debate emergente? Esses questionamentos dirigem o foco do presente artigo que tem como principal objetivo examinar produções cinematográficas que abordam o cotidiano de crianças e adolescentes no Brasil contemporâneo.

Na busca de quais seriam essas produções cinematográficas, percebe-se que no final dos anos de 1990, o cinema brasileiro ressurge com vigor no cenário cultural, acompanhado de projeção e reconhecimento internacional e apresenta como resultado incontáveis premiações.  Na maioria das vezes, esses filmes nacionais são marcados por narrativas que apontam o crescimento da violência contra os jovens, seja nas distantes áreas rurais do país, seja nos grandes centros urbanos, circundados pelas populosas periferias.  Nesses cenários manifestam-se os mais diversos problemas: sucateamento escolar, crimes de todas as extensões possíveis, dissolução dos laços familiares e, particularmente, a ausência de políticas públicas integradoras capazes de subsidiar bem-estar às camadas menos privilegiadas.

Para a o exercício de reflexão proposto por este artigo se selecionou quatro obras da nova geração do cinema brasileiro: Central do Brasil (1998), Abril Despedaçado (2001), Cidade de Deus (2002) e Linha de Passe (2008). Exceto Cidade de Deus, que é dirigido por Fernando Meirelles, os outros três filmes restantes são tem direção e produção de Walter Salles Jr., formando uma triologia, na qual crianças e adolescentes surgem enredados em tramas hostis. Na análise, Cidade de Deus surgiria como um contraponto ao mundo formado por Walter Salles Jr. ou ainda, como uma abordagem paralela que trata sobre o mesmo tema – a problemática da vulnerabilidade e do estado de risco que sofrem as crianças e adolescentes brasileiros. A intenção maior desse estudo é analisar a linguagem cinematográfica como prática educativa na construção da cidadania. Seria isto possível?

Dalmo de Oliveira, membro do Comitê Executivo da Cátedra Gestão de Cidades, Faculdade de Comunicação - FAC

Eu gostaria de assinar um manifesto nacional, assinado pela maioria que de fato exige mudanças no país. Que exige disputas e acordos simbólicos perenes, irreversíveis!  Não mudanças cosméticas ou assistencialistas, mas aquelas que fossem, como escreveu João Guimarães Rosa, “ até o rabo da palavra”. Um manifesto mais ou menos assim, dedicado a todas as pessoas, com mandato ou sem mandato, mas consciente e responsável.
“ Nós, abaixo assinados, perguntamos por que um país se esforça em sediar copa de mundo e olimpíada? Para ampliar o desenvolvimento do turismo comercial, garantir empregos ocasionais, entreter multidões, construir novas arenas de esporte, mostrar competência organizatória e estimular a prática esportiva? Então, respondemos: é pouco. Bem pouco porque isto é o comum, o normal, o que qualquer nação fez e faz. O retorno das Olimpíadas nos tempos modernos criou um grande movimento comercial, acirrou o espírito competitivo entre os povos e começou a construir a idéia de ídolos esportivos, que passou a ser uma espécie de indústria de mitos. Teve valor estimulante, sem dúvida,  mas encerrou e mantém armadilhas e negócios obscuros, corrupções e injustiças para com os jovens iniciantes no mundo do esporte. As copas e grandes torneios esportivos escondem métodos escusos de seleção de pessoas e escancaram os destaques e idolatrias, bem como, via de regra, servem como afirmação internacional – ou humilhação velada – de grupos e nações.
A Copa de Futebol e a Olimpíada no Brasil continuam  à espera de símbolos e valores capazes de ir até “ o rabo da palavra”, como expressão de bens comuns das maiorias exigentes de mudanças. Ouvimos falar de muitos negócios e projetos, mas não de símbolos e valores. Nós, abaixo assinados, cremos que 3 símbolos (que implicam pacto e consenso) seriam suficientes para mudar a consciência histórica do pais: 1. Que haja transparência plena em torno de cada ação, ou investimento de cada real público na infra-estrutura, bem como o processo de negociação das contrapartidas privadas, seus objetivos e seus resultados. 2. Que a cada pá de concreto posto ou tijolo assentado (ou negócio assinado) corresponda valor similar na construção de rede nacional educativo-cultural para (e com) crianças e adolescentes do país, bem como ao cumprimento de cada palavra do Estatuto da Criança e do Adolescente, EC A. Cada tijolo equivalerá (lembrando Paulo Freire) a um ato de consciência, de finanças e de educação para a redenção da juventude do Brasil, com objetivos muito concretos a serem avaliados em 2016. 3. Que a sociedade brasileira sinalize claramente o caminho de superação das desigualdades (exemplo: oitava economia com educação medíocre), tanto colocando a economia e sua gestão  plenamente a serviço das pessoas e do processo de mudança quanto criando políticas público-privadas integradas e integradoras, como deve ser na visão integral do humano. Os abaixo-assinados crêem que o encontro e o pacto em torno desses símbolos criarão associações com outros processos históricos que nos ameaçam, ou que nos desafiam e nos estimulam a construir nova história. Como exemplo, as muitas faces da violência e a vitória sobre a miséria.  Ademais, simbolizar no interior de acontecimentos marcantes como os que se avizinham, produz memória irreversível no coração das populações e cria relações  entre a nação e cada bairro, vila e cidade, erigindo consensos visíveis e invisíveis no interior das diferenças. Depois disso, pode ser que estejamos desenhando o Brasil dos nossos corações e nossas mentes.

Professor Luiz Roberto Alves
Coordenador da Cátedra de Gestão de Cidades
Faculdade de Administração e Economia - FAE

Um ano se encerra, novamente o verão bate a nossa porta. Além da alegria de arrumar as malas, fazer compras de final de ano, presentear familiares, amigos e colegas de trabalho, o término do ano com suas chuvas de dezembro, nos  advertem sobre o perigo ainda presente nesse fechamento de 2010.
Igor e Herbert, duas crianças, sujeitos de direito, pessoas em desenvolvimento, moradores do Bairro de Americanópolis, localizado na periferia da cidade de São Paulo. Apesar de ser ela o grande  centro do capital econômico de nosso país com toda a sua pujança e riqueza típica de uma metrópole, Igor e Herbert foram engolidos pelo córrego Zavuvus. Os jornais já anunciam a morte por afogamento desses dois irmãos e o desespero daquela mãe. Duas crianças que após o término das aulas decidiram visitar o avô e se depararam com as fortes chuvas do dia 25 de novembro. Igor e Herbert em sua infância tiveram a infelicidade de se encontrarem com um grande bicho papão. Um gigante difícil de derrotar em nossa sociedade de classe: duas crianças frente á indecência da moradia para boa parte da população paulista que espera pela casa própria, saneamento básico, canalização de córregos, muro de arrimo, garantia de que a vida não se encerre com uma pancada de chuva de novembro esbofeteando uma família.
Nesse século a questão ambiental tem sido posta como o grande tema do novo milênio. De certo esse tipo de capitalismo tem sangrado a natureza de modo aprofundado, contudo, falta-nos uma clareza: o ser humano é também ecologia. Igor e Herbert faziam parte da natureza humana. Duas vidas se foram, o bicho papão da não cidadania, ambição, acumulação, desejo incontido de ter devorou essas duas crianças, uma de 10  e outra de 9 anos.
Em meio a chuvas, desmoronamentos, ação dos  bombeiros e da defesa civil, o mês de dezembro se inicia prometendo trabalho e cuidado com os eventos da natureza. Diante dessas duas mortes, fica a certeza de que a sociedade civil deve exigir da sociedade política o cumprimento das metas de moradia elencadas no PAC.  Aliado a isso, as pessoas de bem de nossa sociedade devem defender o princípio de que cada  brasileiro e brasileira tenha direito a moradia decente. Para que isso ocorra, governos e sindicato patronal da construção civil devem constituir um grande pacto em nome de um direito básico pelo qual se dá a  manutenção da vida.
Desde os fisiocratas, passando por Ricardo até os nossos dias, o valor da terra é posto como medida de valor da sociedade liberal. Contudo, antes da intensificação dos ganhos mercadológicos com as propostas de investimento do PAC no mercado imobiliário, preservando apenas o  valor de troca do terreno, devemos lembrar de vidas como as de Igor, Herbert e  das pessoas que morreram no ano de 2009 nos deslizamentos de terra ocasionados pelas torrentes chuvas.
Um país que sediará uma Copa do Mundo e Olimpíada deve ser intransigente com o pressuposto político:  sem moradia decente não há cidadania, pois não há homens, mulheres e crianças conscientes de seus direitos e deveres vivendo na cidade; estão sem casa, sem raiz, sem história cidadã.
Antes de se definir o preço do terreno, é preciso calcular o preço da não cidadania brasileira.  A sociedade civil deve cobrar da sociedade política e dos segmentos do mercado, a garantia de preservação do valor de uso da terra, no mínimo para se universalizar a cidadania em nosso país de modo decente.
Somente assim, poderemos fechar as malas com a certeza de que não seremos surpreendidos com a dramaticidade de notícias como as de dezembro de 2009. Quantas vidas  foram perdidas naquele verão? Sem o envolvimento da sociedade civil como um todo, por meio da organização da população no trabalho, escola, igreja, sindicato, sociedade de amigos de bairro, etc, exigindo moradia decente para todos em nosso país, o bicho papão permanecerá engolindo crianças como Igor e Herbert.
 Que neste verão, no mínimo, a defesa civil realize um belo trabalho de prevenção, por meio do  qual se garanta o êxito de aprisionar esse bicho papão que tanto ameaça nossas crianças e suas famílias. Prevenir, retirar as famílias de área de risco, conscientizar os moradores dos perigos em torno dos córregos e garantir bolsa-aluguel condizente ao mercado é uma eficaz política. Essa possibilita as crianças e adolescentes o brincar  para além do verão a fim de que  possam  enxergar a beleza das folhas que caem no outono.   
 

Cristiane Gandolfi
Professora do curso de Políticas Públicas Integradas para Infância e Adolescência.

Não é segredo para ninguém que boa parte da máquina pública está engessada pelas limitações tecnológicas do papel, caneta e carimbo de que dispõem em seu grande modelo burocrático. Sim, existem computadores. Sim, existem faxes. Sim, existem impressoras, telefones, e-mails, internet e sites. Mas existem novos termos, como iPhones, iPads, Androids, Tablets e uma porção de outras tecnicidades que surgem a todo momento nesta nova era digitalizada.

Com a iminente chegada das novas gerações Alpha e Beta (a Z já está ficando pra trás), é inevitável a união destes dois mundos, o burocrático e o tecnológico, em prol das cidades. Os novos governantes devem começar a pensar no impacto que suas ações têm – a repercussão é instantânea. Por exemplo, o YouTube, acessado pelo celular, pode carregar vídeos que acabaram de ser realizados! Quase “real-time”.

Não só as polêmicas, mas estas ferramentas, se bem utilizadas, podem contribuir para a própria democracia e transparência. Imaginem futuras pesquisas do IBGE: cidadãos cadastrados, registrados em que seus IPs (endereços virtuais), que se atrelem aos reais e, nas pesquisas, o questionário que aparece diretamente no computador, ou nos telefones, ou nos tablets. Os cidadãos poderiam responder no conforto de seus lares, no tempo que lhes aprouver.

Ainda, as próprias plenárias de Orçamento Participativo, realizadas de forma virtual. Uma transmissão em live streaming, direto do gabinete do Prefeito e Secretários, fazendo leitura da pauta da plenária, abrindo para uma interação ao vivo, colocando, na tela do celular, quais são as demandas da população, para que o munícipe vote, decida, escolha.

Porque não?

Professor João Gremmelmaier Candido
Faculdade de Gestão e Serviços - FAGES

Para iniciar o diálogo, proponho revisitar o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária  aprovado em assembleia dos Conselhos Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e de Assistência Social (CNAS) em dezembro de 2006. A novidade do plano diz respeito à concepção de políticas publicas em sua dimensão  integrada. Não está focado apenas na criança e no adolescente, mas se estende à família e à comunidade. O propósito do Plano visa fortalecimento da rede de proteção social à família, de forma a prover-lhe todo o suporte necessário à criação e à educação das crianças e a minimização dos prejuízos decorrentes das situações em que a separação é inevitável. Também, são previstos o reordenamento dos abrigos e a promoção de políticas públicas voltadas para o desabrigamento e para a construção de alternativas ao acolhimento de crianças e adolescentes. A prevenção do abandono de crianças e adolescentes, a efetivação de medidas de proteção previstas no ECA no tocante à estruturação dos programas de apoio sócio-familiar e o enfrentamento à violência doméstica também são ações previstas no documento. É um plano que apresenta mudanças estruturais ao trazer a dimensão da singularidade da criança e do adolescente respeitando a sua diversidade cultural, étnica, sexual, de gênero ou relativa aos deficientes localizando-os em sua família e na comunidade. 
O Plano Nacional do Direito à Convivência Familiar e Comunitária apresenta a radicalidade de enxergar a totalidade do ser criança e adolescente em seu grupo de pertença (família e comunidade). As crianças e os adolescentes não brotam do asfalto. Eles possuem uma história, uma localização no espaço e no tempo. Especialmente no que diz respeito àqueles que se encontram em situação de/na rua. Com essa preocupação os CMDCAs dos sete municípios do Grande ABC e outros atores sociais elaboraram o Projeto Grande ABC Integrado (iniciado em 2007) – Crianças e adolescentes em situação de rua: tecendo uma rede de proteção integral para garantia do direito à convivência familiar e comunitária’. Recentemente, em reunião pública,  foi apresentado o relatório da etapa um (dividido em fase I, II e III) da totalidade desse projeto . Esta etapa foi executada pela Fundação Projeto Travessia e Cátedra Gestão de Cidades da UMESP com financiamento da Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal e do Fundo Municipal do CMDCA de São Caetano do Sul aportado pela Fundação Telefônica.
Os resultados consolidados da etapa 1 da pesquisa apontaram para um movimento característico de crianças e adolescentes em situação de rua, que acompanha o ritmo de trabalho, lazer e consumo nas cidades, definindo o final da tarde de sexta-feira como um momento privilegiado para a contagem e revelador dessa sincronia entre pontos de concentração e fluxo urbano. O que mais chama a atenção no relatório apresentado são os mapas que representam a Rede Social de Rua (RSR) e a Rede de Políticas Públicas (RPP), bem como a permeabilidade entre essas redes. Pela análise das redes, pode-se afirmar que a rua representa uma escolha e não apenas uma situação inevitável (seletividade). Essa escolha é reforçada e estruturada pelos vínculos comunicativos (compartilhamento de experiências) com praticamente a mesma intensidade. Na representação comparativa das quatro categorias de análise, pode-se observar que a seletividade aparece com maior intensidade, seguida de comunicabilidade em segundo lugar, laboriedade em terceiro e durabilidade em quarto. Por sua vez, a atividade trabalho aparece representada em intensidade menor, uma vez que nem sempre os entrevistados estão em situação de rua em função de atividades “monetarizadas”. A categoria durabilidade é representada como sendo aquela de menor intensidade dentre as quatro categorias que estruturam as redes. Pode-se observar que a permeabilidade entre as duas redes (RSR e RPP) apresenta uma intensidade máxima de 50%. Ou seja, na forma como está estruturada hoje, a RPP pode influenciar (fragilizar) a RSR apenas até esse nível, chegando a uma influência nula em alguns casos. Nesse limite, pode-se afirmar que está operando forças equilibradas entre as duas redes (RP e RSR), fato observado em duas entrevistas. Entretanto, nas outras entrevistas ganha força cada vez mais intensa a RSR, ao mesmo tempo em que se fragiliza a RPP (até ser anulada). Os resultados relatoriados sinalizam para uma discussão mais ampla, que diz respeito às contribuições da pesquisa para a construção de políticas públicas integradas. Essa discussão, entretanto, deve enfrentar em primeiro lugar os paradoxos e mitos sobre crianças e adolescentes em situação de rua, que surgem como síntese do diagnóstico, portanto, para impactos sociais de RSRs fortalecidas e RPPs fragilizadas. Os paradoxos enfatizam a complexidade de políticas públicas integradas para as crianças e adolescentes em situação de rua. São eles: “Quando a rua é mais protetiva do que a comunidade”; “Quando os programas de distribuição de renda não tiram da rua nem do trabalho”  ou “Quando não se está na rua apenas por causa do dinheiro”; “Quando a rua profissionaliza e é local de aprendizagem” ou “Quando a rua não tira da escola e a escola não tira da rua”; “Quando a dinâmica da rua está tão incorporada ao cotidiano, que a rua passa a representar a comunidade”; “Quando o educador de rua, como política pública, representa a ‘ordem pública”.
Esses resultados são desafiadores para um diálogo com o Plano Nacional do Direito à Convivência Familiar e Comunitária. Para tal, faço uma livre associação com a palavra oikos afim de  tecer algumas reflexões. Oikos é uma palavra de origem grega cujo sentido refere-se à casa, lugar onde se vive. Há outro termo que possui a mesma raiz oikia, assim oikos e oikia possuem o sentido de família e casa. O conjunto de oikos  formava o eixo central da organização política e social do Estado como realidade social, econômica e política mais fundamental do mundo antigo. A casa, o lar, a família, a linhagem era o lugar onde a pessoa construía seu sentido de pertença. A palavra grega oiken significa habitar, residir de modo permanente, estar em casa. Todas as palavras originárias de oikos significam a base e modelo de vida social e política no mundo helênico. Assim, em seu sentido originário  oikos como casa, lugar onde se vive não separa a pessoa do seu entorno, do seu grupo de pertença e da sua história. A proposta do Plano Nacional possui em sua estrutura originária como potência uma aproximação com a concepção de oikos. Resta saber, se os dados levantados pelo diagnóstico do Grande ABC, que aponta cinco paradoxos presentes na complexidade do fenômeno das crianças e adolescentes em situação de/na rua será considerado na formulação das políticas públicas infanto-juvenis nas 7 cidades como cumprimento do Plano Nacional do Direito à Convivência Familiar e Comunitária. A expectativa é de superação das velhas concepções fragmentadas e fragmentadoras da vida que produzem uma política desconectada da realidade. Voltando a palavra oikos como família, a casa e a comunidade (entorno) a política para o Grande ABC deverá contemplar os resultados dessa pesquisa se quiser superar a mesmice e trazer o princípio da proteção integral como eixo ordenador do trato infanto-juvenil.

Professora Dagmar Silva Pinto de Castro
Membro do Comitê Executivo da Cátedra Gestão de Cidades
Faculdade de Administração e Economia - FAE

Na semana passada realizou-se em Diadema a IV Jornada Cidadã, com participação de dezenas de instituições da sociedade civil regional. Neste ano, convergem os projetos do Fórum Social com o mês da consciência negra. No momento de cidadania ativa, tanto cabe louvar e estimular as diferentes formas de participação e intervenção social quanto discutir as armadilhas políticas na construção das cidades desejadas, ainda invisíveis para o homem e a mulher comuns.
As jornadas sinalizaram o caminho seguro da coesão social e da boa disputa de prioridades; do mesmo modo, mostraram a fraqueza das supostas organizações e suas atitudes de fuga e desistência diante dos desafios poderosos.
Trata-se de um problema histórico de educação social. Outra vez, a educação, colocada no interior da cultura política brasileira. A nossa república organizou-se em torno do favor e do domínio de territórios. Sua linguagem criou uma rede elitista de significados ( elite/povo, dirigente/dirigido. culto/inculto, educado/deseducado), a qual comandou a política, a economia, o sistema de comunicação, a educação, a saúde privatizada, enfim a maioria dos atos do governo e da sociedade. Pior: essa rede capturou o discurso das maiorias sociais  (por meio de promessas e migalhas, muitas vezes entre tons patrióticos e religiosos) e dificultou por muito tempo sua visão crítica da realidade. Como mostrou Paulo Freire, não nos educamos e não educamos ninguém fora da consciência e da leitura crítica dos fenômenos que nos envolvem e condicionam.
No entanto, a sociedade se move. Movem-se classes, categorias de trabalho, excluídos de diversos graus e gêneros. Criam nova linguagem, novas metas, novas exigências. Criam também novas instituições, como agências, conferências, pesquisas, observatórios, decisões coletivas de orçamentos. Esse movimento mexeu com a república, a partir das cidades. Removeu parcialmente, as guerras de favorecimento fiscal, tratou de ambiente, água e resíduos sob a forma de consórcio de cidades e estimulou estudos e debates a favor de inovações econômicas e tecnológicas. Iniciou um esforço pela dignidade das novas gerações, dentro e fora da escola.
No entanto, aquela captura de linguagem da república elitista ainda está dentro de nós. Acostumados a promessas e favores, nós cobramos mais do que participamos, esperamos mais do que elaboramos, propomos mais do que avaliamos. Enfim, ainda não consolidamos a democracia, não somente na sociedade, mas também em nosso coração e nossa mente. Viver e conviver em espaços coesos, estar presente em jornadas, encontros e debates, comprometer-se com as instituições sociais, como escola, movimentos culturais e associações cívicas, como o Fórum Social do ABCDMRR, tudo isso pode desencravar de nós o discurso do favor e da mera cobrança, mudando a direção para uma verdadeira cultura de cidadania. (Publicado originalmente no Jornal ABCDMAIOR)
 

Professor Luiz Roberto Alves
Coordenador da Cátedra de Gestão de Cidades
Faculdade de Administração e Economia - FAE

Jornalistas representantes das empresas de comunicação repetem, perguntam e voltam a repetir sobre a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e os riscos do que se chamou “controle social.” Referem-se ao discurso da presidenta eleita Dilma Rousseff, que proclama os direitos. Ora, o que esperar de uma pessoa de 62 anos que na sua juventude teve dilapidados direitos fundamentais, inclusive o da integridade do corpo, a exemplo de um sem-número de cidadãos e cidadãs, aqui e pela América Latina afora? Nem se trata de espera, mas de garantia de direitos humanos e cívicos. Entre as pessoas sensatas e dignas, a resposta à dor vivida e sofrida é a garantia de direitos. Por que então a ênfase? Porque supõe-se a ameaça. A mídia demoniza a idéia de controle social. No entanto, quem não faz controle social? A mídia empresarial? Faz e muito, porque a origem sociológica da idéia de controle social mostra que não se projeta o futuro sem planificação e não se constroem planos sem atos de controle. Este deve ser exercido desde a concepção de qualquer plano até a sua avaliação, forma explícita de controle. A mídia empresarial controla atentamente os demais setores da sociedade nas suas escolhas, julgamentos e opções informativas, visto que ela não é mais veiculo, mas sim fundadora, organizadora e divulgadora de tendências econômico-políticas. Ao mesmo tempo, demoniza qualquer idéia de organizar sistemas de controle e marcos de regulação. Ocorre que na sociedade corporativa internacionalizada, inverteu-se miticamente a metáfora do poder: certos trabalhadores do sistema informativo e do entretenimento, ou da indústria cultural, agem de modo supostamente cândido, como se fossem o antigo jornalista de óculos na ponta do nariz a fazer e supervisionar o seu próprio jornal, a duras penas e sedento do desejo de informar, de dizer o que ocorre na sociedade. As mídias poderosas do mundo, hoje, absolutamente não informam o que ocorre na sociedade, ainda que haja alguma ilusão nesse sentido. De fato, metaforizam no discurso informativo a construção de sistemas de lucro e poder. Não fora assim, as redes que parecem ser veículos de comunicação não se estenderiam a todos os tipos de negócios, da aparente notícia ao agro-negócio, da publicidade ao latifúndio. Acima de tudo, tais aparentes veículos não são educativos, não vivenciam o conhecimento sob interação crítica. Sugiro que leiam, ou releiam, o discurso de Roquette-Pinto, 1923. 
Ainda no inicio da nossa instável democracia, este colunista orientou uma tese de doutoramento na ECA-USP, da profa. Graça Caldas. Seu título: latifúndio do ar. O governo Sarney deu a senha para o novo negócio da mídia ao distribuir centenas de canais entre chegados, agregados e investidores de negócios diversos. O antigo domínio da terra estendia-se ao ar. Criaram-se as novas boiadas do céu e misturaram-se os canais de negócios com os discursos supostamente informativos. Imagine-se esse sistema descontrolado? Não confundi-lo com antigo jornalista e o jovem faz-tudo da rádio comunitária. Para de fato garantir a liberdade, lembremo-nos da história crítica: carece controlar todos os sistemas de poder à luz do bem-comum, do bem-viver de todos e todas. O direito ao negócio não pode estar acima do controle social. O confronto está posto. Alguns consensos são indispensáveis. Não será parte do consenso que o controle será exercido por grupinhos, mas comporá amplos acordos da sociedade brasileira.

Professor Luiz Roberto Alves
Coordenador da Cátedra de Gestão de Cidades
Faculdade de Administração e Economia - FAE

“A democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo.”
(Abraham Lincoln)
A sociedade brasileira ainda comemora a maior festa da democracia: as eleições gerais ou o pleno exercício de poder de cada cidadão - o voto. Entretanto, refletir é necessário sobre isso que chamamos de democracia que vivenciamos no Brasil.
Uma democracia tem em seu arcabouço alguns aspectos que, na sociedade brasileira, são desconhecidos, o que pessoalmente rechaço, ou são ignorados, e carece de profunda reflexão por aqueles que são apaixonados pela polis e pelos aspectos da governança; bem como por aqueles que são chamados de intelectuais e formadores de opinião. Isso sem entrar na perspectiva de democracia indireta ou pura, e democracia indireta ou representativa.
A democracia vivenciada no contexto brasileiro manifesta, em primeiro lugar, sua debilidade quando os meios de comunicação, especialmente a grande mídia, que é um dos pilares da democracia, perdem sua capacidade de ser referencial informativo, orientador e formador de opinião justa, isto é, ter sua linha editorial livre. Pois o que se percebe é o aspecto econômico tomando lugar dessa redação responsável e sem algemas! Assim, princípios democráticos vacilam e a sociedade perde um de seus principais instrumentos de ação: a informação coletiva.
A sociedade brasileira, nesses meses eleitorais, no lugar de presenciar uma grande mídia capaz de argüir, pesquisar, descobrir, publicar e até mesmo denunciar fatos que a ajudasse em sua tomada de decisão quanto ao voto, assistiu a um silencio sepulcral consciente ou a uma omissão da mesma, sabe-se lá por que, perdendo a magistral oportunidade de cumprir seu legitimo e necessário papel na democracia! Pois as vezes que o fez, a população percebia que havia outros interesses que não o da imprensa livre! Por outro lado, há que se registrar que as exceções ficaram por conta de alguns blogueiros e textos independentes expostos na grande rede, a internet.
A democracia no contexto brasileiro manifesta, em segundo lugar, sua limitação quando o processo eleitoral, que é o melhor momento, e legal, para a apresentação de propostas, bem como do diálogo franco dos candidatos com os eleitores, torna-se um “big reality show” ou tribunal público de acusações e achincalhamento não só aos opositores, mas também ao próprio sistema eleitoral! Haja vista o que foi presenciado, nessa linha de conduta, nas eleições de 2010 tanto no plano nacional, quanto nas esferas estaduais, com raríssimas exceções. Ficando o eleitor com a difícil tarefa de descobrir quem propõe melhor e se instrumentaliza a altura para realizar! Por outro lado, a sociedade é obrigada a assistir a tudo isso, que é de péssimo gosto, para não dizer outra coisa; bem como arcar com os altos custos, que nas eleições de 2010 chegou à cifra de R$ 490 milhões, segundo dados do TSE.
Ainda pesam as dificuldades de discutirem temas sensíveis, que são nominados de temas religiosos, sob a égide do argumento de que o Estado é laico. Ora a laicidade de um Estado, que é abstrato, precisa, honestamente, ser entendida que é a não vinculação religiosa do mesmo, mas a maioria absoluta de seus representantes são; quer seja do grupo de servidores da máquina estatal ou dos demais cidadãos que compõem essa sociedade. Assim sendo, as etnias (gente) que formam o Estado é composta de seres eminentemente religiosos! Pois a formação da ética (ethos), da moral (morales), bem como da responsabilidade (responsabilitas) nada mais são do que a soma de valores e princípios, dentre eles a religião (religare). Desprezar isso é desprezar a essência de uma sociedade!
A democracia no contexto brasileiro manifesta, mais uma vez, sua fraqueza quando a maior festa que ela pode promover para a sociedade, eleições gerais, torna-se um processo judicializado e moroso, e, mesmo com o devido respeito às suas Excelências, ficam interrogações profundas quanto às decisões apresentadas aos processos; não se questiona a obediência ou cumprimento das mesmas. O julgamento no STF da Lei Complementar 135/2010, assistido pela população interessada, fala por si mesmo. Por outro lado, a legislação eleitoral brasileira, s.m.j., é cheia de brechas, bem como permite as mais variadas ações de corrupções por parte de alguns participantes; desde a existência de partidos de aluguel, passando pelo sistema de coligações partidárias, chegando ao financiamento das campanhas e sua prestação de contas.
Ainda há muito que dizer quanto a uma legislação eficiente para o trabalho dos institutos de pesquisa e os seus modelos de coleta de dados; o uso da máquina estatal para benefício de determinados postulantes; a linha de conduta e de participação de governantes no processo eleitoral; a desobrigatoriedade do voto, que determinará novas condutas por parte dos políticos; entre tantos outros temas que envolvem a democracia.
Por fim, uma democracia pujante requer, mais do que nunca, uma sociedade consciente e participativa, um Estado ágil e transparente; bem como um jornalismo livre e atuante. Assim sendo, necessário é que os agentes mais importantes da democracia não olvidem em discutir os avanços da mesma, quer seja no estabelecimento de novos mecanismos ou na busca de caminhos mais claros; tudo sem deixar de ouvir a própria sociedade que é a grande beneficiária dessas ações! Eis o grande desafio dos vencedores dessa festa chamada Eleições.
Viva a democracia!

Amós Batista de Souza
Estudante do curso de Gestão Pública do polo Brasília

Daqui a alguns dias, os brasileiros vão votar no candidato a presidente desta República.

Vale lembrar que Aristóteles disse que a política deve existir para a felicidade humana. Hoje, certamente muita gente tem vontade de rir dessa afirmativa. Várias pessoas comentam com uma ponta de sarcasmo e desesperança: “Só se for a felicidade deles próprios: os políticos.”

É nesse ambiente que o Brasil vai escolher o próximo ou a próxima presidente da nação.

Há amigos e conhecidos trabalhando ou engajados em ambas as campanhas. Fazem uma defesa apaixonada da candidatura. Chegam, às vezes, a perder amizades por conta disso.
Será que vale a pena ter uma derrota eleitoral desse nível?

Sábado passado, durante um churrasco com amigos, começou a discussão sobre as candidaturas “a” e “b”. Como era esperado, não houve consenso. Diziam: “Uma candidatura conheço demais, outra conheço de menos.” Outros: “Querem  privatizar tudo, até a Serra do Mar!”. E mais: “São escândalos atrás de escândalos de ambos os lados.
Não tem santinhos!” Etc.

Depois de muitas argumentações, houve o quê? Brigas físicas? Guerras de papéis? Não! Houve sorrisos, beijos e abraços.  Ou seja, a amizade continua, independentemente de suas convicções e dúvidas eleitorais. 

É importante que possamos pensar melhor antes de julgarmos um ou outro, de partirmos para a agressão física ou verbal. A diversidade é um dos princípios democráticos tão bem defendido por Betinho (Herbert de Souza). E é muito ruim observar que alguns  seres  ainda não aceitem isso no seu dia a dia. A diversidade de opiniões é excelente. Jamais haverá, em condições normais, o “tudo igual.” A existência desse princípio leva à tolerância. A universidade deve estimular esse debate.

Estamos vivendo  - não de maneira perfeita – numa democracia que tem 22 anos (contando a partir da Constituição Federal de 5 de outubro de 1988). Alguma lição devemos ter aprendido nesse tempo todo. Somos inteligentes. Principalmente, com relação à vida das instituições e das pessoas.

Tem vícios? Claro que têm. Ficaremos só sentados e meneando a cabeça? Espero que não.
A vida política é marcada por avanços e retrocessos. Que existam discussões. Vamos ouvir as diversas opiniões. Façamos ações que sejam úteis e necessárias para a nossa convivência em sociedade. É importante interagir, dialogar. Sempre com muito equilíbrio e respeito.  E que ajude ao crescimento de todos.
 
 Este é o maior desafio da fase agora em disputa.  .

Professor  José de Sá
Membro do Comitê Executivo da Cátedra Gestão de Cidades
Faculdade de Comunicação - FAC

Caro amigo Paulo, estava eu de viagem. Viagem longa. Percorrera distâncias continentais. Fui parar – ainda que sem me fixar – em uma região muito interessante. Conhecida pela predominância feminina, chama-se Região da Grande Alice. Composta por sete cidades, cada uma delas tinha algo de diferente, mas de uma forma quase mágica, todas estavam ligadas entre si, ainda que alguns moradores da região contestassem o fato.
Andréia era cidade grande. Nela se encontravam vários parques de aspecto bastante naturais. Pertinho do centro desta cidade, havia um bem grande que tinha até um pesqueiro do estilo pesque e solte. Outro trazia um fantástico teleférico sobre represa e árvores. Lindo! Pena estar desativado. Ah! Outro era tão longe, que distava três cidades vizinhas. Um vilarejo ou um povoado que gostava de trens. Bonito lugar. Parecia ter parado nos tempos de mil novecentos e nada. Havia também inúmeras pracinhas por toda a cidade que, embora não tão naturais, conseguiam resgatar um pouco do viver em contato com a terra (areia, no caso) e com as árvores. As pessoas, principalmente as crianças, encontravam espaços para conversar e brincar. As ruas dessa cidade eram repletas de gente em movimento. Cidade agitada essa. Só se aquietava quando a gente dali se entocava nos shoppings centers. Havia alguns.
Bernarda, a mais velha de todas, era enorme. Com seu perímetro marcado pela Serra do Mar, mostrava sua altura em relação ao oceano lá em baixo. Tinha a represa que fornecia águas a todas as outras cidades da região: prova de compromisso. Lamentável era não ter prédios e casas tão antigas que marcassem sua fundação. Talvez isso pela sua constante busca pelo progresso. Era marcada por uma via que começava quase na praia e seguia até o centro da principal cidade da nação. Esses cerca de 40 quilômetros denunciavam isso. Havia bairros que recebiam o nome de antigos moradores e de antigos opressores com quem, de uma forma ou de outra, conviviam. Bairros mais chiques e mais simples. Todos, porém, com pessoas que gostavam da cidade. Seria bairrismo? Parques centrais foram projetados para uma beleza estética que focava a utilidade. Suas escolas eram muitas. Era uma cidade em movimento.
Caetana era a menorzinha de todas. Pequena mas atrevida, como se diz. Gostava de se enfeitar com prédios, altos de preferência, em torno de uma avenida que nada parecia lembrar a razão de seu nome. Praticamente, em seus 15 quilômetros quadrados não se via grandes diferenças. Todos eram muito comportados. Um tanto demais, até. O trem, por exemplo, era pouco estimado quando comparado à Andréia e a Mawá. Orgulhava-se por fazer carros. Coisa útil essa. As pessoas dali gostavam de dormir na cidade, mas preferiam trabalhar em outra, maior de preferência. Apesar de parques sem represa, a cidade vivia represada em dias de fortes chuvas. Causa de preocupação por todos.
Mawá era uma cidade com possibilidade de crescer. Lutava contra preconceitos. De feiúra até mesmo. Talvez por não esnobar fábrica de carros ou grandes parques. Julgou por bem homenagear a bíblia em uma de suas praças. Fez shopping e se preocupava com suas escolas.
Diacema se via como uma cidade tão preciosa quanto seu próprio nome. Tanta preciosidade que conferia fama de cidade perigosa. Será que era mesmo? Havia histórias.
Ribeirinha era muito charmosa e via-se como estância turística. Quais pontos seriam esses atrativos, no entanto, não eram muito conhecidos, mas tal afirmação fazia parte de sua forte personalidade. Gabava-se pelo seu Fog quase londrino, mas era uma névoa mesmo. Fontes de água minavam de seu interior. Profundo. Reservava-se ao direito de ser uma cidade pequena com ares de grande. Lidava bem com esta ambiguidade.
Rioda Serra conseguia ser diferente de todas, mesmo sendo igualmente habitada. Logo em sua entrada, para quem vinha de Mawá e de Andréia, se via uma grande fábrica. Abastecia de peças as cidades que faziam carros. Mas em seu interior, era interior mesmo. Uma cidade com cara de quem é de longe. Não de caipira, mas de vida mais lenta e mais vivida. Alguns buscam trabalhar em outras cidades, mas como os outros, preferiam ficar por ali mesmo, pois era muito bom.
Assim, meu caro, relato este meu testemunho que não é único nem sequer verdadeiro, apenas meu modo de ver cidades. Espero ter-lhe oferecido momentos agradáveis, resgatando suas lembranças de quando esteve por essas bandas e, quem sabe, trazê-lo de volta, ainda que por rápidos momentos.
Seu amigo, Marco. 

Criado por Douglas Filenga e inspirado no texto: As Cidades Invisíveis de Italo Calvino (1923 – 1985)

Professor  Douglas Filenga
Membro do Comitê Executivo da Cátedra Gestão de Cidades
Faculdade de Administração e Economia - FAE
Faculdade de Comunicação - FAC