Recentemente li num jornal da região do grande abc um artigo de um deputado problematizando os temas do Trabalho infantil e das políticas de emprego do país. Chamou minha atenção a maneira direta do deputado em reconhecer a falácia de políticas públicas de emprego para jovens e a ineficácia do Estatuto enquanto importante ferramenta que assegura os direitos infanto-juvenis.
O artigo se intitula – No meu tempo era assim – e, nota-se que o distinto deputado não demonstrou nenhum repudio pelo fato de que muitas crianças nas décadas passadas começaram a trabalhar com 12, 13 anos de idade (é fato que muitas iniciaram sua vida de trabalho com menos de 10 anos de idade). Certamente para erradicação do trabalho infantil esse é um dos nossos maiores problemas, pois como dizia o prof. Antonio Carlos Gomes da Costa: no Brasil trabalho infantil não é visto como problema ele é tratado como solução.
Desde 1990 temos uma legislação que afirma Lugar de Criança é na escola: aprendendo a aprender, a conviver, a fazer e a ser, portanto escola é trabalho. Com o Estatuto surge a política pública do P.E.T.I. (programa de erradicação do trabalho infantil) que tem por finalidade realizar a proteção especial para crianças e adolescentes em situação de pobreza e necessidade de trabalhar. Sabe-se que numa sociedade de consumo, o valor do benefício para suprir todas as necessidades que o mercado aponta é irrisório. Em pesquisas de trabalho de conclusão de curso de Pedagogia da UMESP sobre trabalho infantil e inclusão social na escola foi possível afirmar que muitas crianças trabalham na Economia Informal – nos faróis, feira livre, terminais de ônibus e trens, lava - rápidos, etc. – para complementarem a renda familiar. Elas buscam realizar o direito de saciar sua fome das diversas guloseimas disponíveis no mercado, são bolachas recheadas, doces, chocolates, iogurtes e tantos outros itens que não compõem a cesta básica e que, no entanto, povoam o imaginário da infância pobre de nossa cidade.
Sem discutir o teor calórico e/ou nutricional destes alimentos, vale a pena nos debruçarmos sobre a qualidade da merenda escolar: o que as crianças e adolescentes tem dito sobre os pratos oferecidos pela merenda da escola?
No passado os filhos da pobreza tinham um destino certo: começar a trabalhar desde a tenra idade e na vida adulta ocupar as funções não qualificadas do mundo do trabalho. Ainda naquele contexto, criança não tinha vez, nem voz: pouco era perguntada sobre seus gostos, seu paladar.
Hoje vivemos outro contexto: melhorar a política do P.E.T.I., perseguir a meta da Conferência de Educação para todos com uma forte política de inclusão social destas crianças e adolescentes na escola pública e se apropriar do conteúdo do Estatuto(ECA) é um desejo para que o futuro não reproduza o passado. Escola pública de qualidade com uma merenda apropriada a infância e superação do trabalho infantil é um bom começo para que nossas crianças de camadas populares experimentem o gosto doce da vida, sintam-se respeitadas como gente.
Cristiane Gandolfi, professora dos cursos de Pedagogia e Ciências Sociais da Universidade Metodista de São Paulo.
Postado em:03/10/2011, Categoria: Sem Categoria Autor: catedra, Comentário (0).
As comunidades jovens, que se desenvolveram a partir das décadas de 80 e 90, na nossa atualidade, que estão presentes e contextualizadas de acordo com a situação de crise mundial, esta crise caracterizada pela crise do sistema financeiro, por uma falta de um paradigma ou uma cultura significativamente maior, que seja a norteadora das ações da juventude, em suas comunidades de jovens, e também no que é conhecido atualmente, dentro de uma visão sociológica de “tribos urbanas”, nessa crise das relações sociais que nós encontramos está também presente através da uma história da juventude contemporânea, que é a desestruturação por parte da juventude, de fatores externos e alheios a ela que aliena esta juventude de seu modo de ser social, histórico e protagônico. O que é importante entender agora, sobretudo tendo-se em foco este processo social, é depois de constatar esse novo fenômeno social, como lidar com a questão da violência juvenil.
A violência juvenil, ideia ou conceito ainda em desenvolvimento, pois é um fenômeno social novo, não somente acontece enquanto fenômeno social através do famoso bullying nas escolas, largamente noticiado nessa imprensa que se utiliza do bullying como sensacionalismo para angariar audiência, mas, sobretudo, o problema está muito aprofundado na sociedade brasileira atual, na nossa sociedade interpretada enquanto políticas públicas integradas de juventude, e que muito tem a ver com as políticas públicas de segurança, numa sobrevisão maior da sociedade brasileira atual. Nessa correlação política entre a juventude e a segurança pública, da qual irei procurar e claro entender e formular, mas que não se esgota, para construir uma linha de entendimento sobre o tema e a questão que deve envolver toda a sociedade organizada, tanto da organização política quanto das forças de seguranças públicas.
As intervenções das quais as forças de seguranças públicas, nessa correlação para com as políticas públicas de juventude devem se pautar sobremaneira no desenvolvimento integral da juventude, com os programas sociais preventivos, por exemplo o programa Proerd, de prevenção e conscientização das drogas e da violência juvenil, bem como um policiamento comunitário dentro das comunidades jovens para desse colapso da situação pela qual a juventude, com o seu protagonismo que está em crise devido ao problema fundamental que esta, a crise maior do sistema financeiro, do mercado de trabalho excludente da juventude com o argumento da necessidade de experiência no próprio mercado de trabalho! Esta alienação é resultado deste processo social, econômico e histórico pelo qual a juventude brasileira se encontra na atualidade e subjugada em segundo plano.
Mas também não estou me referenciando a um projeto pedagógico de prevenção da violência juvenil como a formação cívica do regime militar, instrução de uma ausência de criticidade e alienação social, desvinculando os jovens dos temas nacionais e internacionais, mas o desenvolvimento dos direitos sociais, políticos e culturais da juventude brasileira, de se construir enquanto agente protagônico na sociedade brasileira, e numa formação social, política e cultural alinhada com uma política de segurança pública para a juventude. Para a proteção desses direitos sociais, políticos e culturais sempre é necessário referenciar a segurança pública, dentro dos marcos de uma política pública integrada de juventude.
Fernando Gaebler
Postado em:05/09/2011, Categoria: Sem Categoria Autor: catedra, Comentário (1).
O processo de faxina ora em curso em Brasília tem deixado algumas pessoas preocupadas. Preocupadas com o quê? Com essa limpeza toda, ué! Mas o que você tem a ver com isso? Sendo você uma pessoa que trabalha honestamente, paga seus impostos, quer um país melhor o que tem a perder com essa limpeza?
Bem, as cidades já vivem em período pré-eleitoral. Basta ver os anúncios disfarçados em outdoors, ônibus com nomes de vereadores nas ruas, cartas de vereadores parabenizando pelo seu aniversário, dias das mães, dos pais, notícias em jornais “de verdade” ou meramente circunstanciais, almoços e festas com destaques de políticos etc.
Portanto, exige muito cuidado nessa futura colheita de votos. E não se pode cometer injustiças. Um exemplo muito comum: achar que todos os políticos são iguais, que todos querem o próprio aumento do bem patrimonial…
Há políticos e políticas que são muito honestos e trabalham muito em defesa da coletividade. Eles não aparecem muito no noticiário. Essa talvez seja uma falha da própria imprensa. Alguns colegas meus dizem: “Eles nada mais fazem do que a obrigação deles. Por que lhes daríamos destaque?”Porque se não houver notícias boas da política, a pessoas tendem a pensar igual a hoje: achar que nada resolve mesmo e não tem ninguém capaz de despertar o sentimento da justiça, que a política deve ser algo somente para os maus e mais espertos. Adianta viver assim? Claro que ninguém deve ser ingênuo. Longe disso! De ficar aplaudindo sem parar, igual a bobinho.
O Brasil quer pessoas críticas. Que possam pensar mais em políticas públicas e propor soluções inteligentes, que beneficiem a maior parte da população mais desprivilegiada.
Com essa limpeza feita pela presidente da República deve ser apoiada por quem precisa e demande realmente uma vida limpa. O mais curioso é que quem vem manifestando apoio são os senadores que não fazem parte do governo federal, como o gaúcho Pedro Simon e o pernambucano Jarbas Vasconcelos, entre outros.
Será que tem mais gente preocupada com a própria sobrevivência, como um deputado federal conhecido como Boy, de Mogi das Cruzes? Ele já foi da Arena (Aliança Renovadora Nacional), do PDS (Partido Democrático Social), do PL (Partido Liberal) e, desde 2007, lidera o PR (Partido da República). Afinal de contas, ele já esteve envolvido com o episódio do “Mensalão”, foi obrigado a renunciar ao cargo, depois eleito e reeleito. Colocou estrategicamente a candidatura do Tiririca, para o “engraçado e conhecido artista” ter mais de 1,3 milhão de votos que lhe pudessem garantir a sua própria reeleição em 2010. Que pena! Deu certo.
O que não deu nada certo é Boy exigir que Dilma Rousseff mantivesse no Ministério dos Transportes o Alfredo Nascimento. Envolvido em diversas denúncias foi defenestrado. Assim como outras autoridades. Sendo de verdade ou mero marketing político, o fato é que os brasileiros sérios deveriam apoiar essas atitudes da presidente da República.
José de Sá, membro do Comitê Executivo da Cátedra Gestão de Cidades e professor na FAC (Faculdade de Comunicação).
Postado em:22/08/2011, Categoria: Sem Categoria Autor: catedra, Comentários (9).
As contribuições do Projeto Força Tarefa para o enfrentamento à violência escolar no município de São Bernardo do Campo
Em 2011 o Estatuto da Criança e do Adolescente completa a maioridade. Desde o ano de 2007 o município de São Bernardo tem vivenciado um Projeto conhecido como Força Tarefa, liderado pela Promotora de Justiça Dra. Vera Acayaba de Toledo. Diante do aumento de casos de violência escolar lavrados nos Boletins de Ocorrência nas delegacias da cidade, a Promotora buscou todos os serviços públicos de atendimento à infância e adolescência e uma força tarefa de cunho democrático se fez. Diretoria de Ensino da Rede Estadual do Estado de São Paulo, Secretaria Municipal de Educação, Secretaria de Desenvolvimento Social, Secretaria de Saúde, Conselho Tutelar, Fundação Criança, Secretaria de Segurança Urbana do município e Polícia Militar somaram esforços para desenhar um fluxo de atendimento cujo objetivo é tratar a violência escolar de modo integrado, visando a prevenção e não apenas a coerção(como de costume).
Nos últimos vinte e cinco anos a política pública que mais se enraizou em nosso país foi a do Direito à Educação. A instituição escola deixou de ser um privilégio, estar matriculado numa escola faz parte da cotidianidade da cidadania brasileira. A questão é: a escola não é redentora, ela não tem o poder de sozinha mudar os hábitos, costumes, modos de ser, de agir, de ver a vida dos diversos grupos sociais que se encontram no seu interior.
Segundo o Censo de 2010, as Redes Públicas de Ensino somam 42,9 milhões de matrículas e os sistemas de ensino administram 1.882.961 educadores, diante dessa magnitude a sociedade brasileira precisa querer e acreditar na educação como mola propulsora do desenvolvimento humano. Sozinha a escola não tem forças para mudar realidades muitas vezes tão dramáticas, como a vista no mês de abril em Realengo. Sem conhecimento, cientificidade, socialização que visa a formação de indivíduos conscientes, orientados para vivenciar o respeito mútuo, não adianta garantir a máquina pública que não transforma indivíduos em cidadãos. Portanto, garantir a diversidade na escola e realizar um trabalho educativo que se exemplifique com a presença do mundo adulto justo, com autoridade, afeto, exemplo e responsabilidade se põem como um novo marco no momento em que se comemora a maioridade do Estatuto.
O Projeto Força Tarefa conhecido como Programa por uma cultura de paz no ambiente escolar está se enraizando na cidade: 15 mil livros foram distribuídos para os professores das redes públicas (estadual e municipal) a fim de que esse material possa subsidiá-los teoricamente e as Redes de Ensino tem realizado seu trabalho de educação continuada. Oxalá que os professores se empoderem deste material e acreditem que as respostas são construídas localmente e coletivamente. O caminho é árduo, difícil, mas sempre é possível buscar saídas quando estamos de mãos dadas.
Cristiane Gandolfi, professora da Universidade Metodista de São Paulo.
Postado em:08/08/2011, Categoria: Textos Autor: catedra, Comentário (1).
Imagens de crianças e adolescentes morrendo costumam provocar intensa comoção. Em situação de guerra são as vítimas mais sacrificadas. No Iraque, na Albânia, em Angola ou em qualquer outra parte do mundo, crianças são brutalizadas pelos grandes interesses capitais que envolvem seus territórios. Quem não se lembra dos pequenos guerrilheiros de Serra Leoa? Dos garotos talibãs? Ou ainda, das crianças mutiladas de Moçambique? O estado de guerra desarticula as populações e esse processo de desumanização atinge em primeiro lugar crianças e adolescentes.
No Brasil, o estado de “guerra civil” é velado, mas as vítimas existem e são, preferencialmente, jovens e adolescentes que não ultrapassam a barreira dos 17 anos. Suas mortes são violentas, causadas pelo narcotráfico, pelo aviltamento das suas condições de vida (que partem desde a desestruturação da família até a miserabilidade) e pelo preconceito social. Recordações recentes devem ser consideradas: a chacina da Candelária, os frequentes casos de prostituição e de trabalho infantil e os soldados do tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro. Na “guerra brasileira” somente um dos lados morre: o mais pobre. A violência contra jovens e crianças não é um realidade somente das grandes metrópoles, mas também, das áreas rurais do país. Essa dura realidade está camuflada pelo culto da “democracia racial” e pela ideia de que todos têm condições sociais iguais.
Crianças pedintes nos sinais, catadoras de lixo, que se prostituem ou ainda que fumam pedras de crack no centro das cidades são invisíveis para uma parcela importante da sociedade brasileira. Os pequenos deliquentes somente voltam a visibilidade quando cometem atos de infração, tais como, furtos ou assassinatos. Quando devolvem com violência o que recebem no dia-a-dia. O círculo da violência tem pontos de rupturas? Aparentemente, com os modelos aplicados até o momento, não. É possível uma conscientização?
Como despertar a sociedade para os problemas que colocam adolescentes e crianças brasileiros em situação de risco? É possível identificar e discutir os fatores que contribuem para essa triste realidade? As manifestações artísticas que contêm linguagens metafóricas podem abrir novos flancos para essa discussão? Em especial, as produções cinematográficas brasileiras trazem essa discussão para o cenário social? Em caso positivo, quais são elas e que perspectivas apresentam para o debate emergente? Esses questionamentos dirigem o foco do presente artigo que tem como principal objetivo examinar produções cinematográficas que abordam o cotidiano de crianças e adolescentes no Brasil contemporâneo.
Na busca de quais seriam essas produções cinematográficas, percebe-se que no final dos anos de 1990, o cinema brasileiro ressurge com vigor no cenário cultural, acompanhado de projeção e reconhecimento internacional e apresenta como resultado incontáveis premiações. Na maioria das vezes, esses filmes nacionais são marcados por narrativas que apontam o crescimento da violência contra os jovens, seja nas distantes áreas rurais do país, seja nos grandes centros urbanos, circundados pelas populosas periferias. Nesses cenários manifestam-se os mais diversos problemas: sucateamento escolar, crimes de todas as extensões possíveis, dissolução dos laços familiares e, particularmente, a ausência de políticas públicas integradoras capazes de subsidiar bem-estar às camadas menos privilegiadas.
Para a o exercício de reflexão proposto por este artigo se selecionou quatro obras da nova geração do cinema brasileiro: Central do Brasil (1998), Abril Despedaçado (2001), Cidade de Deus (2002) e Linha de Passe (2008). Exceto Cidade de Deus, que é dirigido por Fernando Meirelles, os outros três filmes restantes são tem direção e produção de Walter Salles Jr., formando uma triologia, na qual crianças e adolescentes surgem enredados em tramas hostis. Na análise, Cidade de Deus surgiria como um contraponto ao mundo formado por Walter Salles Jr. ou ainda, como uma abordagem paralela que trata sobre o mesmo tema – a problemática da vulnerabilidade e do estado de risco que sofrem as crianças e adolescentes brasileiros. A intenção maior desse estudo é analisar a linguagem cinematográfica como prática educativa na construção da cidadania. Seria isto possível?
Professor Dalmo, membro do Comitê Executivo da Cátedra Gestão de Cidades, Faculdade de Comunicação - FAC
Postado em:27/07/2011, Categoria: Textos Autor: catedra, Comentário (0).
Os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego divulgados e analisados na 12ª edição do Boletim Econômico da Prefeitura de São Bernardo do Campo serviram para relembrar algumas constatações quanto ao mercado de trabalho formal: 1º) Em 2009, cerca de 90 mil mulheres estavam trabalhando com carteira assinada nas fábricas, comércios e prestadoras de serviços na cidade de São Bernardo do Campo; 2º) a participação das mulheres no mercado formal de trabalho está aumentando: em 1989 elas representavam 23% da força de trabalho, vinte anos depois, elas passaram a representar 34% do total de trabalhadores com carteira assinada; 3º) as desigualdades em termos de salário e cargo para homens e mulheres ainda persistem. A primeira constatação sugere um grande contingente de trabalho feminino, a mensuração daquilo que se intensifica há anos: as mulheres enfrentam tripla jornada. Deixam a casa em ordem, cuidam da família e passam a maior parte do dia em seus empregos. Em um único dia, uma única mulher desenvolve múltiplas tarefas, suporta inúmeros desafios e toma diversas decisões ao ter que abrir mão de algo e realizar escolhas cuidadosamente. A segunda constatação pode sugerir avanços, conquistas, ocupação de cargos que tradicionalmente somente os homens ocupavam, tais como, motorista, executiva, pedreira, mecânica etc. Isso tem ocorrido, porém, não tão intensamente, pois, muitos ainda se espantam ao ver uma mulher dirigindo um trólebus, pilotando uma máquina ou administrando uma empresa. A terceira constatação indica que apesar do aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho, os homens, que em média estudam menos, continuam ganhando mais e ocupando cargos de maiores responsabilidades. Mais mulheres trabalham no comércio e na prestação de serviços do que homens. Na indústria que remunera mais que outros setores, os homens estão mais presentes e as mulheres representam apenas 25% do total de trabalhadores. Para exemplificar, enquanto nos consultórios, para cada 100 trabalhadores, 74 são mulheres; na indústria automobilística, para cada 100 trabalhadores, apenas 9 são do sexo feminino. Todas essas evidências validam ações e políticas públicas voltadas para a redução da desigualdade de gênero. Tal como a desigualdade na distribuição de renda no Brasil que se explica pela mistura de ingredientes históricos, políticos e culturais; a desigualdade de gênero, tão complexa quanto, pode levar muito tempo para ficar distante do inaceitável. Dois corpos podem não ocupar o mesmo lugar no espaço, porém, lado a lado, com o espírito de cooperação, homem e mulher podem fazer funcionar muito bem uma máquina, uma fábrica e um país. Pelas notícias que temos acesso, sabe-se que as oportunidades estão surgindo sem se importar o gênero. Outras variáveis podem pesar mais que o gênero, tais como, a eficiência, o comprometimento, o respeito, a tolerância, a sensatez, a dignidade, o respeito etc.
Prof. Moises Pais dos Santos - Membro do Comitê Executivo da Cátedra Gestão de Cidades
Postado em:01/04/2011, Categoria: Textos Autor: Dennis Cavalca, Comentário (1).
Um dia desses, tomei o trem em São Paulo e fui até Rio Grande da Serra – ponto final da linha que sai da Estação da Luz. O objetivo era desenvolver uma pesquisa de campo de inspiração etnográfica para o curso que faço – pós graduação. Entre as regras, havia a condição de permanecer em observação no campo por três horas ininterruptas. De São Paulo a Santo André não foram observadas pessoas ou comportamentos que pudessem ter algo de destaque num texto que demandará uma nota de avaliação. Preocupado, comecei a viajar nas ideias pensando em algo que fosse mais interessante… Daí que, olhando pela janela, depois da Estação de Capuava, comecei a me sentir bem. Por que seria? Engraçado! A paisagem começou a sofrer uma notável e intensa mudança. Notei isso. Com o passar das estações, o verde da paisagem foi se estabelecendo até resultar num clima totalmente diferente: de interior. Do passado. De bom. Fiquei um tempo em Rio Grande, sem esforço – acho que a atmosfera do lugar ajudou – fiz amizades e ganhei cumprimento de um desconhecido. Pura boa educação. Na volta, notei coisas lindas no caminho do trem. Havia outras cores além do verde. Para destacar algo, notei que as caixas d’água ficam do lado de fora das casas e que as casas têm uma árvore no quintal. Isso foi bom pra mim. Tudo foi mudando como esperava. Ao descer em Santo André, vi os agentes de segurança - que eram vários - numa situação com um jovem drogado, repreendendo pessoas, vigiando. Vi lojas, gente lutando pra vencer na vida. Tinha bastante de tudo. A reflexão que ofereço é que as cidades precisam trabalhar seus próprios significados. Fazer e ter sentido. Ter importância social e econômica ao longo da história. E isso não depende dos políticos ou dos partidos que vivem dizendo que são melhores do que outros. Em minha opinião, depende de cada um – morador ou não – que busque encontrar sentido na cidade em que está. Que busque descobrir quais os sentidos que aquela cidade oferece. Sem dúvida os encontrará. No meu caso, além da nota, ganharei muitos bons instantes recordando as boas coisas que descobri a bordo de um trem. Gostaria que outros tivessem também bons momentos nas cidades por onde passarem.
Douglas Filenga – Membro do Comitê Executivo da Cátedra
Postado em:24/03/2011, Categoria: Textos Autor: Dennis Cavalca, Comentário (1).
Na noite de 14 de março, o professor Danilo lia sentado no chão, local onde gostava de produzir. Chamou por sua filha de 10 anos, Sabine. Imediatamente Michel e Carolina, seus filhos, já universitários, iniciaram a massagem cardíaca que só se encerra no hospital. O eletro encefalograma indicou morte cerebral. Seu coração continuou batendo durante toda a noite, com o auxílio de máquinas, mas no dia 15 de março, perto do meio dia, o prof. Danilo tem mais um enfarte e, desta vez, seu coração não resistiu. Tinha cinqüenta e dois anos e grande cuidado com a saúde já que o seu pai também falecera por problemas no coração. Caminhava todos os dias, comia corretamente, não tinha vícios. Como podemos explicar tamanha rapidez em sua partida? Talvez, a resposta esteja no próprio professor, que tinha pressa em viver. Dizem os amigos que ele era ligado no 320. Para quem trabalhou com ele sabe que sua pressa era saudável. Ele queria mudar o mundo. Só isto! Em momentos de cafezinho no intervalo das atividades diárias, já na década de 1990, dizia que se o mundo fosse administrado por mulheres, a história seria mais humana e mais justa. Mas, que era importante que as mulheres, ao chegarem no poder, não reproduzissem o modelo masculino de liderança a que foram submetidas por milhares de anos na sociedade patriarcal. Era preciso criar uma nova forma de liderar. Inconformado com as injustiças o Danilo queria deixar um legado para a humanidade. Acreditava seriamente no efeito multiplicador das ideias. Seu legado na Universidade Metodista de São Paulo foi a idealização e implantação do Núcleo de Formação Cidadã, que desde 1999 passou a fazer a educação para a cidadania, que passou a ser obrigatória para todos os cursos da Universidade. Ele sabia que, após vencer as resistências de alguns grupos que não queriam abrir mão de algumas horas na estrutura curricular para a inclusão de uma disciplina que diziam “não ter nada a ver com a formação”, seria possível formar um novo tipo de profissional para o mundo. O profissional com formação em ética, cidadania e com alguma compreensão da Filosofia para a análise crítica da sociedade em que vive. Entusiasta da cidadania contribuiu com a formação da Cátedra Prefeito Celso Daniel, de Gestão de Cidades, apoiando suas iniciativas e incentivando docentes a participarem do debate sobre a cidade, a civitas, a polis. Danilo era Teólogo, Filósofo e Doutor em Filosofia por Paris X – França. Foi co-fundador do Curso de Filosofia, junto do prof. Rui Josgrilberg. Foi professor-orientador do Curso de Pós-Graduação em Educação onde pôde questionar a educação tradicional.
Foi um bom pai para Carolina, Michel, Sophie e Sabine. Deixa a esposa, Ângela, companheira de uma caminhada de 34 anos. Deixa, também, uma grande quantidade de amigos e admiradores, pois, acima de tudo, ele sabia ouvir e participar da vida das pessoas que o rodeavam.
Profª Márcia Barbosa Velasques-Membro do Comitê Executivo da Cátedra.
Postado em:18/03/2011, Categoria: Textos Autor: Dennis Cavalca, Comentário (0).
Nos últimos quinze dias fomos surpreendidos com notícias de dois casos de violência envolvendo professores de escola pública. De um lado, a mídia noticiou com exaustão a prova de matemática aplicada por um professor de uma escola de um bairro da periferia da cidade de Santos, considerando-a como uma apologia ao crime. De outro, infelizmente, tomamos conhecimento sobre mais uma morte violenta de professor no entorno da escola. Ironicamente, o professor de matemática tentou de um modo solitário e infeliz trazer para o cotidiano da aprendizagem parte do contexto dos alunos. Se pesquisarmos as condições de vida do bairro em questão, veremos que, o narcotráfico está inserido na comunidade. Junto a isso, tragicamente, a professora assassinada era uma profissional da escola pública estadual Paulo Freire no município de Embu. Não sabemos se sua morte está relacionada com o trabalho pedagógico que desempenhava ou se foi decorrência de um fenômeno particular. O que se sabe é que a escola tem deixado de ser o lugar seguro e feliz propositado por Synders, Anísio Teixeira, Paulo Freire e tantos educadores comprometidos com as novas gerações e futuro do país. Ainda que, a morte da professora não tenha nenhum motivo pedagógico, é preocupante saber que a porta da escola foi o lugar escolhido para sua execução. Em tese, hoje estamos mais próximos de Freire, porém a política educacional em vigência traz em si, de forma densa, as cores de John Dewey. Os sistemas de ensino buscam garantir igualdade de oportunidades para todos, tendo claro que o desempenho educativo é individual, assim o conceito de desigualdade escolar por dentro da máquina pública faz parte da política de educação vigente. A superação desse quadro exige outra política. Não é possível projetar uma escola inclusiva sem pensá-la como espaço sociocultural imerso em categorias freirianas. A vida de Paulo Freire foi um canto em defesa do direito à educação. Para muitos, ele é o maior educador da historia do pensamento pedagógico brasileiro, sua pedagogia estava voltada para a vida e leitura do mundo vivido. Educação é possibilidade de transformação, é contato com a realidade social e sua problemática. Seu pensamento é marcado pela dialética e coletividade, por meio destas vivencias a alfabetização se faz com as palavras geradoras propiciadoras da leitura de mundo e por conseqüência, da descoberta da tarefa histórica de um tempo social. Desta consciência emerge a compreensão e definição de uma problemática humana a ser enfrentada e superada. A professora Vera Candau em seus estudos sobre educação e direitos humanos, chama atenção para o fato de que há uma diferença entre conflito e violência. O primeiro é inerente ao processo de ensino-aprendizagem, uma vez que, sem o embate teórico entre professor/aluno, realizado pelo dialogo, respeito e crença no outro, o aluno não é capaz de repensar seu quadro de valores, validar o que é signficativo e discernir sobre o que é certo ou errado, verdadeiro ou falso. O conflito pedagógico é um motivador de aprendizagem no ambiente escolar, já a violência é produto do dilaceramento do ser, da razão pela qual se constata a impossibilidade da pessoa vivenciar sua identidade e estabelecer relações com seu mundo simbólico. A escola tal como conhecemos é feita com o desenvolvimento do capital cultural com vistas ao favorecimento das diversas aprendizagens, em especial as cognoscentes, tácitas e atitudinais. Sem elas, não há escola. Pierre Bourdieu, um importante sociólogo francês, morto no ano de 2002, nos anos sessenta a analisou como instituição burguesa, estruturada a partir do conceito de educação como violência simbólica, logo era espaço privilegiado de reprodução social, isto é; lugar de dominação de classe, de acumulo do capital cultural, lócus dos herdeiros da cultura geral. Com ele, aprendemos a proeminência do hábitus professoral como esquema mental que se repete a fim de sedimentar uma concepção. Quanto maior a aderência da ação pedagógica do professor ao trabalho pedagógico do sistema de ensino, maior será o habitus professoral e por conseqüência o sucesso da escola reprodutora burguesa. Ao analisar a escola como agencia cultural, Bourdieu nos mostra a importância da disciplina como elemento estruturante de aquisição do capital cultural na agência escola. Sem a apropriação dos estados de incorporação, objetividade e institucionalidade a aprendizagem não se opera, logo, fracassamos na efetivação de uma escola capaz de promover capital cultural. Se o corpo, a atenção, a energia muscular não estiverem voltados à aprendizagem, nada acontecerá. Para que retomemos a sala de aula como um espaço sagrado de convívio, de disposição para o outro e encontro com a cultura geral, é preciso mais do que o estado de incorporação. Freire trabalhava a alfabetização conscientizadora de seus alunos sempre em rodas de conversa ou círculos de cultura. Corpos dispostos para a aprendizagem dialética e os mais diversos insumos culturais favorecem a institucionalidade do conhecimento. Tenho me perguntado: Se Freire estivesse vivo que leitura de mundo faria da educação de nosso tempo? Que simbologia há no assassinato de uma professora diante da escola pública que o homenageia como seu patrono? Técnicos dos sistemas de ensino, profissionais de educação, sociedade brasileira, não devem tratar essa morte como mais um fato da violência nossa de cada dia. É preciso ouvir o que a realidade está nos dizendo. Retomar os conceitos educacionais de gestão democrática por meio das vivências de grêmios estudantis, festivais musicais, apresentação de teatros, palestras condizentes à problemática local, plano de carreira e piso salarial para os profissionais de educação, parceria da escola com as famílias, organizações não governamentais e todas as forças vivas da comunidade (dispostas à realização da ética de solidariedade) é um dos caminhos para o reencontro da escola contemporânea com o pensamento clássico de Synders, Freire e Gramsci. Esses sempre perseguiram a escola democrática com o efetivo direito à educação e não a escola violenta imersa na barbárie. Precisamos retomar o conceito de cientificidade e humanismo com alegria, satisfação e desejo da pessoa humana que se realiza ao se sentir capaz de vivenciar a cidadania no espaço escolar. Com Synders e Freire, essas trilhas percorrem o horizonte sociocultural: o mais difícil, mais tênue, e ao mesmo tempo, mais denso. Somente por essas trilhas poderemos enfrentar a violência escolar, constituindo uma escola humana e democrática, respeitosa aos direitos humanos, no que concerne ao encontro de pessoas e científica no que tange a sua relação com o conhecimento e a cidadania. Grande tarefa histórica temos a frente.
Profª Cristiane Gandolfi-Membro do Comitê Executivo da Cátedra
Postado em:10/03/2011, Categoria: Textos Autor: Dennis Cavalca, Comentário (0).
Todas as nossas cidades são insustentáveis. Fosse o contrário, elas não ficariam debaixo d’água depois de 50 minutos de chuva, não atenderiam doentes em corredores e o Estatuto da Criança e do Adolescente teria pleno vigor. Segundo os melhores estudos, nas próximas três décadas devemos mudar em mais de 70% nossos hábitos e comportamentos, como pessoas, grupos e organizações. Ao reler a história, tem-se que o espírito possessivo de capitanias coloniais, mais a ignorância administrativa dão conta da insustentabilidade. Em decorrência, corrupções, práticas clientelistas e autoritárias fazem parte do mesmo quadro. Desde os anos 60 entram em cena três debates novos: os direitos cívicos, a qualidade do que é público e a responsabilidade cidadã. Aí nasce a governança: o governo da cidade vai além da eleição de 4 em 4 anos. Ela inclui o governo eleito, o sistema econômico-produtivo e a sociedade civil e suas organizações. Porém os estudos e a prática alertam: é possível chamar a população, fazer de conta que há participação e tudo ficar como antes, em cruel jogo de aparências. O direito alardeado termina por definir-se como direito negado. De fato, novas práticas de governança têm a ver com a democracia que queremos, com a qualificação da democracia brasileira. Governança não determina eleição (porque corruptos e autoritários são bem votados), nem define a realização de obras urbanas. Mas sem compartilhamento de poder não se educa a sociedade, não se constroem valores e símbolos e muito menos se prepara a cidade para a solidariedade global, para uma comunicação que vá muito além das mídias. Trata-se de uma escolha social. Ao escolhermos compartilhar o saber e o poder na cidade, ficamos ao lado do processo político e não dos resultados imediatos; optamos pela igualdade entre moradores e cidadãos/cidadãs e não pelos privilégios e pelos “mais-iguais”; decidimos pela cidade com chance de se sustentar, portanto uma cidade de direitos. Sustentar vai muito além de crescer ou produzir riqueza. Sustentar é equilibrar natureza e cultura, economia e serviços; garantir o acolhimento dos migrantes; visibilizar amplamente a contabilidade pública e dar exemplo ético diante das novas gerações. Um governo de fato sustentável é algo bem diferente da maioria das administrações públicas que posam de modernas. Modernidade não é atualidade e sim qualidade provada e comprovada, ponto de partida para a nova cidade. Vivê-la é preciso.
Prof° Luiz Roberto Alves - Membro do Comitê Executivo da Cátedra.
Postado em:03/03/2011, Categoria: Textos Autor: Dennis Cavalca, Comentário (0).
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